terça-feira, 21 de abril de 2009

Eu sei que ele dormiu aí com você, sua puta, piranha, vaca, vagabunda. E desligou na minha cara. Péssimo jeito de acordar. Nunca fui amiga da garota e nem ia com a cara dela. Se quisesse xingar alguém, que xingasse o peso morto que roncava ao meu lado. Esse sim tinha aprontado. Eu não. Que deu naquilo. O peso morto que agora roncava ao meu lado. Deu naquilo. E na pobre namorada no Brasil que devia ter passado a noite em claro ligando no celular dele, no hotel dele, no celular dos amigos dele, no hotel dos amigos dele, até chegar, as duas da tarde, no número do meu celular. E me acordar. Com a voz entre o pato choroso e a gralha assassina. Mas o que eu tinha a ver com isso? Homens traem, querida. Você não quis ter um namorado? Azar o seu. Eu pensei. Na época. Época em que eu não namorava ninguém nem amarrada. Preferia essa vida mesmo. Os pesos mortos dormindo ao meu lado e eu controlando o mundo. E as histéricas querendo morrer em outro oceano. Ser a outra. Eu sempre fui a outra. Com a sensação maravilhosa de passar o mundo para trás. Eu nunca fui chata a minha vida inteira. Eu era a gostosinha do trabalho. Pra morrer de rir na hora do almoço porque posso ser muito divertida com minhas histórias. Pra transar no fim do expediente sem cobranças e com direito a brincadeiras malucas na banheira. Ninguém nunca me largou, viu minhas remelas ou choros desesperados. Quem larga uma mulher assim? Quem enjoa de uma mulher assim? Quem não fica louco por uma mulher assim? A parte chata, deixava para as outras. A cor do piso do banheiro. A dor de estômago domingo de madrugada. O medo do desgaste. A loucura do amor entortando bocas, sobrancelhas e até o caráter. O papo mais difícil sobre aquele assunto mais pesado. As outras que fizessem esse papel. O meu papel era ser somente engraçada e carinhosa, pedir carona em noites românticas, dividir horas agradáveis falando de filmes e livros no almoço e de vez em quando, quando valesse a pena, mostrar meus dotes de massagem por aí. Quem esquece uma mulher assim? Acorda aí peso morto. Sua dona acabou de ligar, falou meia dúzia de finesses pra mim e desligou. Vai lá resolver esse problemão enquanto eu e meu pijama mínimo dormimos mais um pouco. Vai. O cara ia. Sempre olhando pra mim com um cantinho de vontade de nunca mais sair de perto de alguém tão calma e feliz. A outra. As outras são sempre calmas e felizes. O lado bom da vida que não cobra, não dói. Só dá prazer. Sempre me diverti em restaurantes. Aquelas mulheres que entram cheias de si com seus respectivos. E eles todos se acabando de olhar para as outras mulheres. Para mim, inclusive. E eu provocava. E gostava de saber que morava desse lado da moeda. Do lado do podre. Do lado que todo mundo teme. Do mundo que ninguém comenta. Mas desconfia. Do segredo universal. Da coisa que é melhor não tocar. Do deixa pra lá. Eu gostava de estar do lado que todos morreriam pra saber. Na curva onde todo mundo derrapa. O cochicho que você se mata pra ouvir. A conversa cifrada. O segundo que você acha que viu, mas pode ser coisa da sua cabeça. Eu pertencia a esse universo privê da verdade absoluta e sem maquiagem. Que poder eu sentia. Pobres coitadas todas as oficiais, se eu quiser, fizer direito, amanhã mesmo ele arruma uma dermatologista pras sete da tarde. Desliga o celular. E você. Seu azulejo branquinho. Suas técnicas para um domingo fora da rotina. Seu molho de maracujá. Vão tudo pro caralho. Porque o que eles querem, de verdade, pobres mulheres comprometidas, é qualquer coisa que não sejam vocês. Por isso, nada adianta, não é mesmo? Assim eu pensava. Naquela época. Época em que nenhum homem do mundo me achava chata ou louca ou mala ou enjoativa. E eu ria, ria delas, de todas elas. As encontrava no Shopping com seus anos e pesos e filhos a mais do que eu. E ria. Seu namorado, seu marido, seu amor, ficante fixo, qualquer coisa séria. Sabe ontem? A tarde? De manhã? A noite? Pois é. E você acreditou mesmo que era ensaio, academia, dentista, massagem ou jantar com aquele amigo de mil anos que ele não via? Era bom. Engordava, fortificada, dormia serena. A outra. Que saudade dela. Foi embora. Morreu sufocada por uma vontade maior que nasceu em mim. A de ser a de verdade. A de ser a escolhida pra viver uma história e não pra gozar ou rir em horários encaixados. A de correr o risco de cair de algum lugar muito alto e longo e precioso. Correr o risco de sentir e não brincar de sentir. De bancar uma história que não acaba quando o despertador do motel toca. De conseguir amar, mesmo com o pavor que isso causa. De conseguir sorrir mesmo com tanta raiva e ódio de amar. Que saudade de ser sempre a divertida. Agora, sou eu, assustada, ingênua, que entro cheia de mim nos restaurantes e morro de medo dele olhar para o lado.Enlouquecendo. E com pena dessas garotas, controladoras, que quase sempre, usadas, continuam solitárias enquanto eles voltam para o que realmente tem importância. Suas mulheres de verdade. O amor que luta pra sobreviver porque é só pelo o que vale a pena lutar. Desculpa garota do telefone. Desculpa. Eu era mesmo uma puta, piranha, vaca, vagabunda. Mas agora, sou só a mesma imbecil que você. Que todo mundo. Mais cedo ou mais tarde. Que todo mundo. Porque quem disse que eu não preferia continuar fugindo do amor? Mas ele vem, ele chega, invade, grita por comida, te enche o saco, fede fumaça, mas é lindo, é a melhor coisa do mundo. Faz tudo valer. Faz você se quebrar inteira pra colar de novo de um jeito possível de relacionar. Dói tipo nascer, e eu sei disso mesmo não lembrando. É fácil não ter medo de altura quando se vive subterraneamente. Agora, eu sei, posso cair, e o vento na cara, gelado, vertigem, enjôo, desespero, que medo, dá até pra morrer mas é assim que, acho eu, se vive com coragem.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O amor é uma doença

Eu não sei guardar coisas. Se eu compro chocolates, como todos no mesmo dia. Se eu compro balas, chicletes, devoro todos em minutos, compulsivamente. Detesto saber que algo me espera, quero acabar logo com aquilo. Não sei lidar com a responsabilidade da felicidade. A felicidade guardada na bolsa ou na vida. Eu tenho um homem lindo me esperando essa hora, e eu quero com todas as células do meu corpo ir ao encontro dele. Mas eu não sei lidar com tanta felicidade, por isso estou planejando a morte dele. Estou planejando matá-lo com minha estupidez, quero que ele morra fulminado pelas minhas armas de boicote. Quero que ele perceba o quanto sou chata, ciumenta, louca e doente. E que ele enjoe logo da minha cara abatida de intensidade. Que ele pegue logo bode do meu cansaço em viver tanto, porque vivo muito mesmo quando estou deitada olhando para um ponto fixo. É tão cansativo ser eu mesma com todos os meus medos e neuroses, e quero que ele sinta o fardo do meu peso. Morra e me liberte dessa alegria incontrolável. Passe desta para uma melhor.Eu lembro daquele conto da Clarice em que a garotinha ruiva guardava os contos para ler depois, porque queria prolongar o mistério da felicidade. Pois eu quero mais é botar fogo em todos os contos de felicidade que a vida escreve para mim, porque por alguma razão maluca a felicidade me escraviza, me paralisa, me faz ficar triste. Eu olho para você e tenho tanta, mas tanta alegria em saber que você existe, que sinto ódio. Ódio de eu não mais esperar por você. O sentido da minha vida era encontrar você. O motivo para eu seguir adiante nos corredores escuros e bater em portas obscuras, era a sua busca. Agora que você está sentado numa sala clara e óbvia, não preciso mais me enfiar em buracos. Mas os buracos eram a única trilha que eu conhecia. Você me soltou na atmosfera e eu estou voando. E eu sinto saudades do buraco, da espera, da angústia. Eu sinto falta de olhar triste para o espelho e me sentir metade. Agora que eu tenho você, nem perco mais meu tempo olhando para o espelho, porque só tenho olhos para você. Você me roubou de mim mesma. E eu sou tão ciumenta que estou com ciumes de mim. Você me tirou da minha vida incompleta. O amor é uma doença. Eu sinto náuseas, febres, dores musculares. Eu acordo assustada no meio da noite. Eu choro à toa. Eu estava do lado da sujeira, eu era a outra, eu estava por dentro do crime. Você me fez sentir um mundo limpo, verdadeiro e eterno. E esse mundo é tão novo pra mim, que eu te odeio. Que eu estou pequena nele, e preciso de você o tempo todo para me abraçar e dizer que está tudo bem. E quando você não está por perto, eu caio. Porque não sei nada desse mundo de alegrias e coisas bonitas. Você não me deu saída. Você transformou todas as vozes que me davam escapatórias para outros corredores, em sons sem lábia. Minhas saídas perderam as escadas escuras e charmosas, porque você lavou meu chão de imundícies com amaciante Fofo. Se eu tentar fugir, escorrego no perfume da minha nova vida. A nova vida que não sei viver. A nova vida que quero viver ao seu lado. Ao lado do homem que eu odeio porque nunca amei tanto. Ao lado da felicidade que eu odeio porque se ela acabar, não sei mais se consigo voltar pra casa. E nem se quero. Era eu, entende? Era eu que me atracava com o lado errado da vida para estar sempre certa. Era eu a resposta para todas as perguntas que ninguém tem coragem de perguntar. Sim, o mundo é imperfeito, as pessoas traem, o amor não existe, seu marido me come, seu namorado me come, o mundo quer me comer enquanto você borda seu laço cor-de-rosa. Agora eu estou aqui, inconformada com o seu passado, querendo matar suas lembranças. Com ciúmes do seu silêncio porque ele está com você há mais tempo do que eu e eu tenho medo do quanto ele te consome, com ciúmes do seu sono porque ele te leva do meu foco. Com raiva da sua importância porque ela me congela, com raiva do tempo que não dura para sempre quando você me olha sabendo das minhas loucuras e ainda assim me amando. Agora eu estou aqui, querendo que todos os amores do mundo durem para sempre, e que nenês nasçam, e que árvores cresçam e que os desejos das nossas sombras não nos traia. Agora eu estou aqui, de quatro, de língua no chão, te odiando muito, virando a cara, socando você, cuspindo em você, te tratando mal, tudo isso porque não sei lidar com o mundo girando na minha barriga, a tontura do amor, o enjôo do vício em você, a dor do músculo quando me separo. Pode parecer maluco, mas todas as minhas súplicas para que você desista de mim, é um jeito maluco de pedir que você não desista nunca, pelo amor de Deus.