quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Eu perdi o deslumbramento com o amor, com o trabalho e com a beleza. Eu descobri que amor entedia, emprego não é diversão e belezas são relativas. O problema é que não soube substituir o meu deslumbre por acomodação, eu não sei me conformar com a chatice do mundo. Mas o que exatamente seria uma vida extraordinária?
Nas poucas vezes em que senti algo realmente extraordinário, ou eu estava brincando de não ser eu, ou estava fazendo algo errado, ou estava vivendo algo que acabaria rápido e que jamais seria contaminado pelo tédio.
Viver extraordinariamente é isso então? É estar fora da nossa própria vida? É viver pouco várias coisas? É viver muito poucas coisas? É ser um personagem de um roteiro que a gente muda toda hora?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O Celular.

- Você tá falando com esse cara de novo? ­- Não. ­- Tá falando sim! ­- Não, tá louco? ­- Tá aqui ó, no seu celular. Você ligou pra ele ontem às sete, sete e meia, sete e trinta e seis e sete e quarenta e sete. ­- Ah, ontem... Mas não é sempre que eu falo, falei ontem, mas fazia tempo... Foi um azar você ter olhado meu celular justo... ­- Azar? Azar?! Azar foi eu ter te conhecido! Um barulho ensurdecedor, uma dor enorme no peito. Fechei os olhos no segundo do susto. Não podia acreditar em tamanha violência. Era um tapa na minha cara, uma humilhação, um ato desumano e injustificável: meu celular espatifado em três partes inúteis e sofridas. ­ Arrebentei seu celular para não arrebentar a sua cara! Ele ainda grita como se tivesse me feito um favor. Pois que tivesse espatifado minha cara, que é dura como pau de cara-de-pau. Que merecia acordar de algum sonho tão bonitinho e cor-de-rosa, mas que tanto mal fazia a tanta gente. Comecei a chorar compulsivamente. Ele andava pela casa pálido, com a cor e a carranca inconformada da traição. Eu me acabava em lágrimas olhando os pedaços do meu celular, tentando juntá-los na esperança de algum sinal. Nunca desejei tanto ver aquela luzinha verde e aquele barulhinho de "estou ligado à espera de suas ligações minha querida". Ele pensava num plano, ele pensava num assassinato, ele pensava o quanto não merecia aquilo pois estava tão empenhado em me amar, ele pensava que talvez merecesse porque quando eu estava tão empenhada em amá-lo era como se eu não existisse. Ele desistia de pensar e se jogava em algum canto chorando como um bebê. Eu sentia uma pena que me dilacerava: um celular tão bonitinho, presente de mamãe, ela comprou com tanto esforço. Cheio de funções tão bacaninhas: voicer, mensagem de texto, opções de musiquinha, internet. E pensar que ele morreu sem eu nunca ter visto os horários do cinema nele. Ele gritava pela casa: "é muita injustica! É muita injustiça! A gente vai se perder!" Perder? A dor da perda era realmente a maior que um coração mimado podia sentir. Eu me contorcia: decerto eu havia perdido mais de 200 números de telefone de uma só vez. Inconformado, ele me chacoalhava e, olhando tão fundo nos meus olhos que me envesgava, dizia: "uma história tão bonita, como você pode..." Tantos números, tantas histórias. Lembrava daquele convite meio sem jeito, do homem que me deixava tão sem jeito com a sua inteligência para baixarias. Tão tímido e tarado. Tão inteiro em seus opostos, exatamente como eu. Não sabia o telefone dele de cor, pois esse era para de vez em quando, pra nunca perder a graça e para dar tempo de renovar as piadinhas e esfriar a orelha. Lembrava do recadinho rápido e cheio de carinho bem na virada do ano-novo. Minhas amigas me xingando para eu não levar o celular pra festa porque era uma história descabida, proibida e obviamente ele tinha uma fila de pessoas muito mais importantes do que eu pra abraçar naquela noite. Aquele recado foi o maior abraço que eu podia receber, mesmo distante. Foi naquela noite que eu me apaixonei. E uma outra ligação, tarde da noite, de um bar, um amigo sem vontade de voltar pra casa: "por que se eu sou feliz com a vida que tenho você me faz tanta falta?" Pessoas especiais. Ele não tinha o direito de destruir pessoas especiais. Destruir números, lembranças e minha liberdade de revivê-las novamente quando eu bem quiser. Ele não tinha esse direito. De colocar ponto final nas minhas histórias eternamente enroladas e sem fim. Vou terminar tudo, arrumar meu celular e voltar a viver. Lembro do dia em que ele me ligou às três da manhã, num ato mais desesperado do que o que teve em atirar meu celular na parede: "eu sou tão sozinho, eu sou tão sozinho..." Aquilo foi uma prova de amor, ele se desnudou finalmente. Naquele momento senti o coração voltar a aquecer: eu também sou tão sozinha. Você quebrou meu celular! Você quebrou meu coração! Resolvemos consertar tudo, perdoar tudo e continuar vivendo juntos. Não era mais paixão, o que me fazia de vez em quando lembrar com melancolia daqueles números do meu celular. Mas era amor, o que me fazia torcer para ele atirar o celular na parede tudo de novo.

Odeio

Eu tenho, você tem e eu duvido que aquele cara ajoelhado na frente do santo ou aquela mulher descalça numa ciranda espírita não tenham: ódio. E eu não sou só isso, eu não sou assim o tempo todo, eu não me baseio nisso. Mas, sim, eu odeio, e como. E a cada dia eu odeio mais conscientemente, a cada ano eu odeio mais especificamente e a cada noção da vida eu odeio mais verdadeiramente.
Eu odeio que encostem o cotovelo, a bunda ou uma cerveja molhada em mim enquanto eu tento encontrar um espaço para dançar.
Eu odeio que encostem em mim, odeio a pele de um desconhecido indesejado. Odeio homens com camisetinhas justas e colares.
Odeio garotas de nariz empinado em suas calças que de tão apertadas fedem corrimento. Odeio meninas ensebadas que mexem demais no cabelo e olham para os lados com vergonha da própria existência.
Odeio homens que olham para bundas como se admirassem uma carne pendurada no açougue e odeio mais ainda quando fazem bico e aquele sim com a cabeça, tipo "concordo com o mundo que ela é muito gostosa".
E se ele fizer aquela chupada pra dentro do tipo "hmmmmm delícia" já é algo que ultrapassa os limites do meu ódio. Bater o dedinho do pé na quina, futebol pelo rádio, pessoas felizes demais, bocejos, mania de batuques (sim, foi para você), cigarro enquanto eu tô comendo .Mau atendimento em restaurante (ou em qualquer lugar) e pessoas que não sabem chupar laranja ou tomar sopa sem sonoridades.
Odeio quem ignora a necessidade do desodorante, do retoque na raiz preta e da hora de parar com a comida.
Odeio que faça sol se preciso de uma desculpa para não sair de casa. Odeio chuva se tenho roupas novas de verão.Flanelinhas, patricinhas, nominhos carinhosos para o namoradinho e frases carinhosas para o namoradinho no diminutivo. Odeio mau hálito e mais ainda o fato de que justamente as pessoas podres são aquelas que falam mais baixo e nos obrigam a ter que chegar perto. Odeio homossexuais enrustidos que usam a desculpa para não pegar uma mulher "ah, eu só pego de modelo pra cima".
Odeio homens. Toques de celular personalizados, tatuagem tribal e a nova moda das atrizes-modelos-manequins de tatuar as inicias do namorado da semana.
Odeio bolsas Louis Vuitton, elas são feias e caras e quem usa é a típica lânguida que eu odeio, de rosto fino, cabelo fino e cérebro fino do fino shopping Iguatemi.
Odeio pessoas muito oleosas, muito peludas, muito suadas e acima de tudo meninas que cheiram a lavandas e gostam de adesivos de ursinho.
Odeio as pessoas que eu amo muito, tipo minha mãe. Odeio que me mandem falar mais baixo e odeio que falem alto. Odeio que me olhem e que não me vejam. Odeio comerciais com crianças vestidas de branco correndo no campo com flores amarelas.Odeio quem comemora porque passou numa faculdade que meu primo de 8 anos passaria e quem diz "peguei a mina". "Pega no meu pau, muleque!"
Odeio bolsa de couro sintético combinando com o sapato de couro sintético (se as fivelas combinarem eu posso enfartar a qualquer momento).
Odeio quem passa o dia no shopping com a família, churrascaria com aquele desfile de bichinhos mortos, principalmente porque você está lá tranqüilamente comendo e vem alguém com um espeto (que é grosseiramente imposto ao seu lado), te espirra sangue, fala um nome idiota e você nunca sabe exatamente de que parte se trata.
Odeio homem que arrota aquele assoprinho que precede a explosão do chopp, sabe? Odeio quem casa virgem, odeio quem chega em casa depois de uns malhos no carro e enfia o dedo no meio das pernas porque tava louca para dar mas "ele ia me achar muito fácil". Mas eu também odeio mulher que sai dando pra meio mundo e perde o mistério. Sei lá, essa coisa toda de dar vai ser sempre uma dúvida. Odeio dúvidas.
Odeio meninas caçadoras de homens ricos mas odeio sair com um cara que está tentando começar um relacionamento e ter que rachar a conta, seria mais simpático me deixar pagar a conta toda. Rachar é péssimo.
Dividir banheiro, pêlo alheio em sabonete, acordar cedo e meninas adolescentes peruas com voz de pato. Odeio gordinhas que dizem "é que eu tenho a estrutura óssea larga" e dá-lhe brigadeiro em frente à televisão. Odeio aquele velho filho da puta me olhando na mesa ao lado, com três crianças penduradas no pescoço e uma mulher com culote comendo abacaxi para ajudar na digestão do javali. Odeio a típica família e suas árvores de Natal cheias de rancor, e os doces das tias cheias de rancor, e as crianças lindas correndo querendo que o priminho morra porque ganhou mais brinquedos. Odeio o tapinha dos homens e o beijinho em falso das mulheres

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Tanta gente nesse mundo é enganação, pare pra pensar, de verdade: quem é que é alguma porra realmente? O mundo é dividido entre os que fazem encenação, que dá aí uns bons oitenta e cinco por cento (procure por aí, as pessoas em festa como se cada movimento fosse um clique de foto, o jeito de sentar milimetricamente calculado para nada querer dizer, procure, tantas poses com a bebida na mão e o cigarro na outra, procure por aí os olhares misteriosos, se dando uma importância transcendental com o charme de não aparentar nenhuma, os saltos, os jogos de tortura mental, ligo na terça pra dar tempo dela sentir falta na segunda, sair por cima é a única saída, procure, são tantos os tipos, eruditos preenchidos do sentir externo, felizes de morrer, tristes de matar, artistas papagaios, piadistas sem humor próprio, “autênticos” em série, tudo fruto de ensaio, tudo fruto de frase pronta ou sensação copiada) e os que simplesmente desistiram da vida toda (os que vagam semi mortos, não se importam mais com machucados, cartas, barulhos de chuva e músculos, não se preocupam com o que vão dizer ou pensar ou causar ou carregar, foda-se, que venha a morte mas antes se der pra gozar só mais uma vez, só mais uma vez, de barrigada ou caridade, é o princípio dos alcoólicos anônimos só que pra parar de morrer: só mais um dia vivendo. Os que não vivem quase enganam que são de verdade, com seus panos e movimentos e bens igualmente abandonados, mas ser de verdade sem “estar” não vale muito, pense bem.).

sábado, 5 de setembro de 2009

Estou cheia do azedo que percorre meu fígado e me enche de medo de vazar, de repente, num fim de tarde, numa certeza qualquer de uma roupa branca e equilibrada, numa alegria despretensiosa, numa felicidade sem cérebro, num silêncio mais cansado do que desejado.Até a borda de mim. Entupida de tudo o que, passiva em ser, apenas sou. Olhos inchados, boca cheia, coração apertando o peito, língua encharcada, a vida latejando e o corpo pesado demais para voar.Estou cheia de mim e de tudo que se relaciona ao assunto. Cheia da incapacidade em estacionar em um plano, em enquadrar um sonho feito uma borboleta morta, em continuar acreditando no que acreditei até a morte, em ter paz longe das arestas acolchoadas que criei durante toda uma vida de expectativasassustadas.Sou filha, mãe e escrava do caos, dele me tiro, sem ele não existo. Estou cheia do caos, mas tenho horror ao equilíbrio. Confiro minhas listas compulsivamente, buscando um pouco de linha reta para que eu possa deitar e esquecer das contorções que me apertam até que eu pingue no mundo.Sou um trapo sujo que lavo e contorço todos os segundos, mas não o tanto que deveria por falta de força, preguiça e vontade de borrar a existência ao lado. Eu preciso ganhar um sopro de vida em qualquer outra vida, para me enxergar além do espelho construído e imposto. Eu preciso me ver responsável por uma palidez matinal, uma pontada no intestino inflamado, uma trepada no azulejo do chuveiro, uma parte suave e instrumental de uma música, um cheiro de podre e solidão na madrugada sem preenchimentos.Existo apenas para causar, e juro que amo essa palavra “causar” além da gíria que ela sugere. Existo apenas para mim mesma, o tempo todo, como nos contos do Hermann Hesse, tenho nojo e pânico de grupos que se acolhem para que se aceitar não seja um trabalho tão penoso e se sentir possa tranqüilamente ser vazio.Tenho muito medo que as pessoas sem profundidade conheçam a minha, e mais medo ainda de que a profundidade do mundo me cuspa. Sou uma sem-terra porque desprezo o superficial, mas dói demais ser intensa o tempo todo, e preciso fazer luzes, compras e sexo casual.Cheia dos meus preconceitos, da vontade que tenho de cagar em cima da cabeça de todo mundo que faz beiço para insinuar sexualidade, de todo mundo que se enfia num terno para insinuar vitória, de todo mundo que se enfia atrás de uma mesa para insinuar vida, de todo mundo que se enfia atrás de uma garrafa para insinuar alegria, de todo mundo que se enfia num bando para insinuar existência, de todo mundo que se esquece no Sol para insinuar luz.Até o topo, até o céu, atolada, tô por aqui comigo. Cansada do meu vício de organizar tudo o que sou e de não deixar espaço para o novo, para o que eu poderia ser, para o que eu nem sei que é.Queria agora que uma asa rasgasse as minhas costas porque, mais do que sentir a dor da liberdade, preciso não ter sexo, nem nome, nem tempo e nem casa. Preciso enxergar e sobrevoar o mundo sem ser eu, para que ser eu não seja este mundo tão pequeno e apavorado. Preciso ser qualquer coisa que eu não saiba.